terça-feira, 17 de outubro de 2017

Os Cacos de Hóstia

Há muitos anos atrás visitei um ferro-velho à entrada de Évora, de que algumas pessoas dessa cidade ainda se lembrarão. Situava-se junto a um dos arcos de entrada e infelizmente esqueci o seu nome. A loja encontrava-se cheia dos artigos mais diversos e curiosos. Na altura chamou-me à atenção uma máquina com duas pás, em ferro, para fazer hóstias. Infelizmente não o comprei, mas achei-o suficientemente interessante para tirar uma fotografia ao proprietário com o aparelho ma mão. Não consigo encontrar a fotografia, que seria adequada para apresentar agora, e na vez seguinte que voltei a Évora a loja já tinha fechado.
Imagem tirada da internet
Esta memória foi-me suscitada pela oferta que a minha amiga Conceição me fez de Cacos d’hóstia. Trata-se de restos partidos das placas de hóstia feitas no Instituto Monsenhor Airosa (IMA), em Braga. É nesta instituição social, fundada em 1869 pelo padre que lhe viria a dar o nome e transferida em 1879 para o extinto Convento da Conceição, que são feitas estas hóstias. 
A venda destes fragmentos, que só começou a ser feita em 2016, reverte a favor da instituição. Antes os restos eram oferecidos, talvez por se achar que um produto destinado à Eucaristia não devia ter um fim comercial. Mas as hóstias só depois de consagradas na missa se tornam sagradas, assumindo o sentido do corpo de Cristo. Antes são, segundo o conceito católico, placas de obreia.
Fabrico de hóstias em Ponte Nova no Brasil
Quando eu era pequena frequentei na Covilhã a chamada escola da Maria Gabriela. Era uma escola privada que tinha uma pequena capela. Um dia um dos alunos comeu todas as hóstias destinadas à missa do dia seguinte. Grande escândalo!. A dúvida era se este acto representava pecado ou não. A conclusão foi de que fora um furto por gulodice, não sendo um acto pecaminoso pelas razões anteriormente referidas.
Partículas de hóstias com Lemon curd
Acresce-se outro aspecto importante. Desde 1999 que na Oficina das Hóstias da IMA são fabricadas hóstias feitas com farinha de trigo sem glúten. Este aspecto permite o seu consumo por crentes com doença celíaca e facilita a sua exportação para vários locais do país e para o estrangeiro.
Agora só falta provar os cacos d’hóstia ou os pedaços de placas de obreia que durante séculos foram a base para tantos doces, em especial os de ovos.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Conferência: «Saleiros: funcionalidade e simbologia»

 A propósito dos saleiros da Casa Museu Anastácio Gonçalves (CMAG) vou falar na 5ª feira, dia 12 de Outubro, às 18,20 horas, sobre este objecto de mesa, presentemente ostracizado.
Saleiros Kangxi. Família verde. CMAG.
Numa época em que se diaboliza o sal é importante compreender como a sua presença na alimentação foi e continua a ser importante.
Saleiros Qianlong. Família rosa. CMAG
Este mineral único foi desde muito cedo considerado sagrado na história do Homem. Os povos estabeleceram uma ligação entre o sal e o divino, mas nenhuma religião sacralizou mais o sal do que a tradição judaico-cristã.
Saleiro duplo. Porcelana. Colecção AMP.
Foi assim que o saleiro se torna no objecto mais importante sobre a mesa, o primeiro a nela ser colocado, situando-se durante séculos junto ao lugar do anfitrião. Era o saleiro fixo, imponente, de grande valor simbólico.
Nos séculos que se seguiram foi-se democratizando e no século XIX foi de bom-tom o saleiro individual. Presença constante sobre a mesa no século XX, foi progressivamente sendo ignorado.
Saleiro de Francisco I. Benvenuto Cellini. Kunsthistorisches Museum. Viena de Austria
É esta evolução do saleiro que iremos apresentar, analisando os saleiros adquiridos por Anastácio Gonçalves, os principais saleiros mundiais (onde não podia faltar o mais belo: a saliera de Benvenuto Cellini, de 1543) e já agora alguns exemplares da minha pequena colecção.

Aos interessados no assunto lá os espero.

sábado, 30 de setembro de 2017

Segredo para que hum frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza

Jerónimo Cortez (1555-1615) foi um escritor e matemático espanhol que se pensa ter nascido em Valencia onde publicou pela primeira vez, Fisonomía natural y varios secretos de naturaleza, em 1598, na casa de Juan Crisóstomo Garriz. Este livro foi reeditado em Tarragona em 1609; em Barcelona em 1610; em Alcalá de Henares em 1612; novamente em Barcelona em 1614 e em 1741 e ainda continuou a ser publicado em 1821.
Antes já havia publicado um tratado matemático Tratado del cómputo por la mano (Valencia, 1591) e o Compendio de reglas breves (Valencia, 1594).
Mas a sua obra mais conhecida foi o O Non Plus Ultra do Lunario e Prognostico Perpetuo..., conhecido simplesmente por Lunario perpetuo (Valencia, 1582), a que se seguiu a Aritmética práctica (Valencia, 1604).
Tanto o Lunario como a Fysionomia foram traduzidos para português e tiveram igualmente um enorme sucesso editorial tanto em Portugal como no Brasil, sempre aprovados pela Igreja, como já tinha acontecido em Espanha. 
O livro Fysionomia e varios segredos da Natureza; contém cinco tractados de differentes materiaes, resumia todo o conhecimento de ciência naturais disponível no final do século XVI e a forma como estava escrito, com revelação de segredos em forma de receitas, tornou-o apelativo para um vasto público mais culto mas também ajudou a disseminar conhecimentos na população em geral.

Innocencio Francisco da Silva, no Diccionario Biobibliographico Portuguez, sobre a obra Fysionomia e varios segredos da Natureza, refere a edição feita em Lisboa, por Miguel Menescal, em 1699, a de 1786, de Lisboa, na Off. de Domingos Gonçalves em 1786 e outra de 1792, publicada na Off. de Francisco Borges de Sousa. Inocêncio refere a penas as edições que viu acrescentando a de 1844 impressa em Lisboa, na Typ. de Mathias José Marques da Silva, mas sabemos que existiu uma em 1815 e outra em 1831.
Não mencionou igualmente a edição que temos em nosso poder, de 1706, publicada na Officina de Joseph Antunes da Silva em Coimbra.
Tudo isto é para lhes divulgar o «Segredo para que hum frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza, e outro segredo para o fazer saltar, e fugir».
 Como o saber não ocupa lugar, aproveitem!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Ser atado” ou como levar as expressões à letra

Já anteriormente falei dos fogões da Vacuum Oil, cuja publicidade era interessantíssima. Hoje mostro mais um exemplo de como «os publicitários são uns exagerados», como alguém disse há alguns anos.
Com um desenho de Emmérico Nunes (1888-1968) a criada apresenta-se literalmente atada e a explicação para os atrasos nas refeições não é dela mas da falta do fogão Vaccum que faz um pequeno almoço em 10 minutos, usando é claro, petróleo Sunflower comercializado pela Vacuum Oil Company. 
O anúncio foi publicado na contracapa da revista ABC (25-10-1928), que apresenta na capa o perfil de uma jovem, muito ao gosto dos anos vinte. O tipo de desenho e a assinatura (S.) fazem-me pensar que se trata de António Soares (1894-1978) que assinou as suas obras com «António», «Soares» e «António Soares» e possivelmente «S.», tal como Emmérico Nunes assinou «E».

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A industria têxtil no XXI Encontro de História Local

Convite para assistirem ao interessante «XXI Encontro de História Local, onde o olhar vai recair sobre uma das indústrias com mais longa tradição em Guimarães – a indústria têxtil.
Fácil é perceber o porquê desta longa tradição do têxtil em Guimarães quando pensamos que esta é terra de pergaminhos, protegida por reis, fértil em águas, de clima ameno e propício ao cultivo do linho e à produção da lã,
espaço de peregrinação desde a Idade Média, localizada numa encruzilhada de caminhos que facilitava o acesso ao
mar, não longe do Porto, e sendo uma via de ligação privilegiada com Trás-os-Montes.
Os linhos de Guimarães, e mais tarde o seu bordado, ganharam nome e estatuto entre as produções nacionais e, ainda hoje, a indústria têxtil no concelho está pujante.
Neste XXI Encontro de História Local, iremos a tempos longínquos em busca do têxtil de Guimarães, debruçar-nos-emos sobre a introdução da tecnologia na indústria têxtil vimaranense entre os séculos XIX e XX e partiremos, de seguida,  em busca do uso dos têxteis na vida religiosa e profana. Um programa a não perder!»
(Texto de apresentação do colóquio)
Bordado de Guimarães. Pormenor de uma toalha de mesa. Imagem do livro «Bordado de Guimarães»
PROGRAMA
9h30 - Entrega de documentação
10h00 - Guimarães: o tecer histórico de um concelho. Isabel Maria Fernandes
10h45 -  Pausa para café
11h15-  A introdução da tecnologia na indústria têxtil de Guimarães entre os séculos XIX e XXI. Paula Ramos Nogueira
12h00 - Em busca dos têxteis: visita guiada ao Museu de Alberto Sampaio
12h30 - Almoço
14h30 - Os ornamentos pombalinos da Colegiada de Guimarães: uma coleção dividida. Maria José Meireles
15h15 - Vestir a mesa. Séculos XV a XX. Ana Marques Pereira
16h00 - Pausa para café
16h30 - Considerações sobre as Telas da Casa do Largo Dr. João Mota Prego. Rosa Maria Saavedra
17h00 -  Errologia - O erro como metodologia de Design. Filipe Miguel de Melo Falcão
17h30: Debate. Encerramento.

Eu vou estar lá a falar sobre o que eu gosto (A mesa) e que será o tema do meu próximo livro.
Para os interessados a inscrição é feita preenchendo o formulário com acesso  em: 
 https://docs.google.com/forms/d/1tCplVLnJaAMJdao87hG4tkPkMbPHAhf3Ol9SYyN0wWo/edit?usp=sharing


domingo, 10 de setembro de 2017

Chávenas há muitas

Tal como dizia Vasco Santana na célebre cena do filme A Canção de Lisboa: «chapéus há muitos…», também há muitas chávenas.
Existem de todos os tamanhos e formatos, com maior ou menor riqueza consoante o material de que são feitas e o tipo de pintura. Perante esta diversidade dizer que esta é a mais bonita parece difícil, mas é irresistível pensá-lo. Olhando para ela achei-a de imediato lindíssima. É uma chávena de café, de dimensões um pouco avantajadas para os nossos conceitos de hoje, em que bebemos sobretudo “bicas”.
De contorno gomado é acompanhada por um pires polilobado com várias flores pintadas à mão, todas diferentes. No prato conto oito flores, de várias cores, intercaladas por raminhos que se encontram também no exterior da chávena. No interior desta encontra-se uma flor no fundo e vários raminhos. A toda a volta do rebordo da chávena e da asa, bem como no contorno do pires, foram desenhados pequenos risquinhos de uma simetria e igualdade espantosa.
Infelizmente é apenas uma porque gostaria de comparar com as restantes, que certamente a acompanhavam, e ver como o artista repetiu esta pintura delicada.
No fundo da chávena e do pires pode ver-se o carimbo da Fábrica do Carvalhinho e as frases «Pintado à mão» e «made in Portugal». Não tenho nenhum catálogo da louça do Carvalhinho mas seguramente que esta peça é de cerca de 1950. 
A fábrica do Porto, com início em 1840, começou por fazer sobretudo azulejos. Em 1923 passou para Vila Nova de Gaia para a Quinta do Arco do Prado, com umas extensas instalações de que só sobraram ruínas. Entre 1923 e 1961 esteve ligada à Fábrica de louça de Sacavém e acabou por fechar após o 25 de abril de 1975 (década de 80?).
Foto tirada do blog Ruin'Arte
O que me atrai nas peças desta Fábrica é a sua portugalidade (não me peçam para explicar). Noutro poste falarei de histórias relacionadas com outras peças que fui adquirindo para justificar este meu gosto. Por hoje fico-me apenas com a apresentação da "mais bela chávena" de café, que me faz repousar o meu olhar. 
Espero que as imagens sejam convicentes, se o texto o não tiver sido.

sábado, 2 de setembro de 2017

A obra de Ginette Mathiot

Edição de 1963
Quando estudava na Faculdade vivi durante algum tempo em casa de uma amiga francesa, em Lisboa. Quando ela voltou a França fiquei com a casa e alguns dos seus livros. Não me recordo de nenhum em especial excepto de um pequeno livro de receitas, uma edição de bolso, chamado «La Patisserie pour tous».
Edição de 1971
O livro tem 911 receitas apresentadas por temas e escritas de uma forma muito simples. Dos inúmeros livros de culinária que possuo a grande maioria nunca serviu para fazer uma única receita. Mas a este pequeno livro tenho sido fiel, sei sempre onde está e é o livro que consulto para fazer crepes (a receita nunca falha), scones, massas quebradas, folhadas, etc.
Pasteleiro por Nicolas Larmessin . Séc. XVII
Como todos os livros tem uma autoria, mas nunca me debrucei sobre isso. Para mim era o livro pequeno de capa branca que tinha uma imagem modificada, ao gosto dos tempos modernos, do «Patissier» desenhado por Nicolas de Larmessin no século XVII.
Quando há dias me veio parar às mãos um livro com o mesmo título mas com uma capa diferente, pareceu-me familiar. Quando os comparei vi que a minha edição era de 1963 enquanto esta é de 1971. Pela primeira vez reparei no nome da autora: Ginette Mathiot.
Ginette Mathiot. Foto tirada da internet.
Quando fui pesquisar o seu nome descobri que Ginette Mathiot,(1907-1998) tinha sido uma professora de artes caseiras (arts ménagers) que em Portugal se designou como Economia Doméstica e que chegou a Inspectora Geral do Ensino Doméstico da cidade de Paris.
Para além disso, foi autora de vários livros de cozinha que tiveram uma estrondosa aceitação. O primeiro e mais famosos foi o Je sais cuisiner (1932) adaptado nesta colecção de livros de bolso como La Cuisine pour tous (1955). Este livro foi um sucesso editorial com publicações na ordem dos milhões.
Seguiu-se em 1938 Je sais faire la pâtisserie e em 1948 Je sais faire les conserves. Esta edição de Pastelaria que eu referi foi adaptada da de 1938 e reproduzida várias vezes depois. Mas muitos outros títulos da sua autoria foram publicados, tanto de receitas como de Economia Doméstica e Higiene. Uma grande parte da sua obra foi também traduzida em muitas línguas.
Foto tirada da internet
Perante toda a sua actividade disciplinada e organizada, que abreviei muito, pedi desculpa mentalmente à falecida autora Ginette Mathiot, por nunca sequer ter reparado no seu nome.
Sei que estou desculpada. Porque esta sua obra teve aqui uma seguidora. O início da receita dos crepes ficou na minha cabeça: «Mettre la farine dans une terrine. Faire un puits; y casser les oeufs……….» por tantas vezes o ter lido.
Afinal eu soube reconhecer a qualidade, mas a fraca e simples apresentação do livro não o valorizou. Que contraste com as obras de grande apresentação gráfica que não prestam para nada, que compramos pela sua beleza e nunca nos servem senão para encher as prateleiras.