segunda-feira, 27 de março de 2017

Fado do Pão de Ló

Um feliz encontro. O fado do Pão de Ló, um dos êxitos musicais de Estevão Amarante, e o grafismo de Stuart de Carvalhais, na ilustração de mais uma partitura. 
Ah! e já agora a presença do Pão de Ló, esse doce tão apreciado pelos portugueses e interpretado de forma tão variável nas diferentes regiões.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O mistério do Licor dos Benitinhos: resolvido.

Quando escrevi o livro «Licores de Portugal: 1880-1980» dediquei um capítulo às várias ginjinhas lisboetas e aos seus fabricantes.
Na história da Ginjinha Espinheira conhecida também por “Ginjinha do Rossio” fundada em 1840 pelo pai de Francisco Espiñeira Cousiño (de que se desconhece o nome) surgia um mistério em relação a um dos licores. O fundador foi o primeiro elemento da família a vir da Galiza para Portugal. O seu filho Francisco herdou a pequena loja ainda hoje existente e comprou a primeira fábrica de licores na rua Damasceno Monteiro. Tendo ficado à frente do negócio dos licores naturalizou-se em 1896 português.[1]
Em 1906 fez o primeiro pedido de registo de uma das suas marcas, a «Ginja Bebida Peitoral e Digestiva», bem como do «Licor de Hortelã Pimenta Superior»[2]. Foi também em 1906 que registou a marca «F. Espinheira 1º fabricante», com a foto do mesmo dentro de um círculo, a que se sobrepõe um outro círculo com idêntica imagem do Zé Povinho[3].
Em 1907 registou uma marca chamada «Licor dos Benitinhos»[4] de que nunca vi qualquer garrafa ou rótulo. Apresentava a foto de dois homens risonhos, já de idade avançada. Esta imagem não fazia qualquer sentido dentro da tipologia dos rótulos de licor da época e sobre ela escrevi: «parece só fazer sentido para quem os conhecia e não deixou história».
Há dias ao folhear a revista Branco e Negro de 1890 deparo-me com uma fotografia de A. Bobone com a legenda «Dois moços de recados». A imagem encontrava-se sob o título «Typos de Lisboa» e nada acrescentava.
Não havia dúvida eram os «Benitinhos» que deram lugar ao título do licor e que, a avaliar pelo fisionomia, deviam ser galegos. Ficou esclarecido o mistério. Eu tinha razão quando escrevi que tal imagem só faria sentido dentro de um contexto familiar que neste caso era o de umas figuras que à época deviam ser conhecidos nas ruas de Lisboa.

PS: A expressão «moços» aplicado a homens de idade já avançada não se relaciona com juventude mas com uma função ou ofício:«moço de recados».





[1] ANTT, Registo Geral de Mercês de D. Carlos I, liv. 11, fl.12v, 02/10/1896, Carta. Naturalização.
[2] BPI, 1906, nº 7, p. 270.
[3] BPI, 1906, nº 12, p.449.
[4] BPI, 1907, nº 11, p. 394.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A Alquimia da Cor na Alimentação

Tertúlia gastronómica por Sasha Assis Lima e Cristina Rodrigues Pereira 
que terá lugar no Palácio do Sobralinho, Sábado 25 Março ás 16:00 horas
 Inscrições online até 23 de Março (https://artesnopalacio.com/agenda/workshops/)

sábado, 11 de março de 2017

Uma panacota de nutricionista

Foto tirada do blog Deelightfully Veg
Por razões pessoais tenho-me deslocado frequentemente à Covilhã. O Hotel onde ficamos tem ao jantar um buffet agradável, mas da penúltima vez o que nos surpreendeu foi a excelente qualidade das sobremesas.
Foi portanto com entusiasmo que cheguei à hora do jantar, mais com a expectativa dos doces do que dos salgados, o que para mim era uma novidade. Normalmente evito sobremesas fora de casa porque não compensa o mal que fazem pelo sabor que oferecem, normalmente apenas a açúcar.

Quando comuniquei o meu entusiasmo à pessoa que nos recebeu foi-me dito que eram sempre diferentes, o que era natural. Naquele dia para além das frutas havia um leite-creme bom, um bolo húmido em fatias que não experimentei e panacota de chocolate. Esta apresentava-se dentro de um frasco de vidro decorada com framboesas e nozes. Esta moda do frasco de vidro aceito (até nos cansarmos) mas numa panacota não nos permite ver a sua consistência. Quando a experimentei era uma pasta dura, onde dificilmente a colher entrava, sem gosto e sem açúcar, na realidade incomestível. Decepcionada chamei o empregado da sala e disse-lhe que aquilo não era panacota e que não sabia o que era. Foi saber e quando voltou disse-me que era uma receita da nutricionista no sentido de ter uma sobremesa menos calórica. Era feita com leite de soja e estivia e por lapso não estava identificada como opção saudável.
Imagem do blog  Panning the Globe
Expliquei-lhe, apesar de não ter culpa, que panacota (panna cota) significava natas cozidas e que portanto não podia ser feita com leite e ainda menos com uma coisa que não é leite porque não existe nenhum animal chamado “soja” que dê leite. Por outro lado o que caracteriza esta sobremesa de origem italiana é a sua consistência gelatinosa, isto é, no prato deve tremer. Portanto o melhor era dar outro nome àquela sobremesa, como por exemplo: «sobremesa saudável, sem calorias, sem açúcar e sem sabor» e assim já não enganavam ninguém.
Foto tirada da internet
Este pequeno incidente despertou em mim uma profunda irritação contra esta profusão de nutricionistas que interferem agora também nas receitas em restaurantes. São centenas (ou milhares?) de meninas jovens, com a beleza e elegância natural da idade, que não sabem estrelar um ovo e saem da Faculdade a querer transformar a alimentação dos outros. Tem uma aptidão natural para as câmaras de televisão, ou vice-versa, e entram-nos pela casa adentro quando menos damos por isso.
Quando eu trabalhava como médica no hospital, em serviços de Oncologia, lamentava que não existissem nutricionistas para apoiar os doentes. Falava com as dietistas e acabei por escrever um livro destinado à alimentação dos doentes oncológicos, uma vez que não havia outro. Não sei se nessa altura ainda não tinham saído da Faculdade nutricionistas suficientes ou se estavam todas (não sei porquê mas o predomínio é feminino) na televisão.

Agora é esperar que esta moda passe e que eu possa comer nos restaurantes pratos salgados ou doces feitos e pensados por cozinheiros. Não é pedir muito, pois não?

PS. Não fotografei a sobremesa pelo que as imagens não correspondem.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Carnaval, música e Stuart

Stuart Carvalhais (1887-1961) foi um ilustrador e gráfico português que deixou uma obra extensa. 
A sua colaboração em revistas, jornais e como gráfico para firmas como a Club Bristol e a Sasseti, permitiram-lhe abarcar áreas diversificadas, utilizando sempre um estilo identificador.
Os seus desenhos retratam figuras populares e cenas da vida noctura em que a mulher é presença constante. Mesmo quando retrata a mulher do povo a figura feminina é delicada e sofisticada com os seus olhos esfumados que a tornam misteriosa. 
Vê-se a sua obra e percebe-se que desenhava como respirava, com uma facilidade extraordinária, uma espécie de Camilo Castelo Branco do desenho.  
Nesta época de Carnaval em que a música é presença constante, mostramos uma pequena parte da sua obra gráfica, as capas de pautas musicais feitas para a Sasseti nos anos 20 e 30, de que excluímos os fados, por demasiado tristes. Uma selecção musical adequada a esta época.
Para um fim de dia mais calmo

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A romaria do Senhor da Serra

Branco e Negro 1897
Era no verão no mês de Agosto que tinha lugar a romaria do Senhor da Serra. Hoje ainda é festejada em vários locais de Portugal como em Semide, Miranda do Moncorvo e Vendas da Serra. Mas no século XIX era famosa a romaria que tinha lugar na região saloia, nos arredores de Lisboa. 
Arquivo fotográfico da CML
As pessoas diziam que nenhuma era tão concorrida e alegre como a que tinha lugar em Belas no interior da Quinta do Marquês.
Branco e Negro 1897
A quinta tem uma longa história e a designação deve-se a ter pertencido ao Marqueses de Belas, família que teve a posse da quinta durante os séculos XVIII e parte do XIX. Na quinta situa-se o Paço de Belas, mas era nos seus terrenos que tinha lugar a famosa romaria que levou a que nos séculos XIX e XX, a Quinta dos Marqueses de Belas passasse a ser designada de Quinta do Senhor da Serra.
Arquivo fotográfico da CML
Nesse dia deslocavam-se milhares de pessoas com os seus fatos domingueiros levando consigo saquinhos de pano com a merenda, enquanto outros compravam os petiscos que aí se vendiam, tudo partilhado em ambiente festivo. No início do século XX ainda se realizava a romaria. Fotografias de 1907 existentes no arquivo da CML mostram-nos momentos de alegria vividos pelos populares que aí se deslocavam.
Branco e Negro 1897
Arquivo fotográfico da CML
Estes desenhos aqui apresentados assinados por Condeixa (Ernesto Ferreira Condeixa 1858-1933) que também pintou um quadro a óleo sobre o tema, fazem-nos vislumbrar um pouco desses momentos e foram publicados em Agosto de 1897 no semanário Branco e Negro.
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P:S: Os desenhos «Por entre barracas» e o «Na volta da romaria» são idênticos a fotos existentes na CML e a que é atribuída uma data de 19--. Estas fotografias devem ser anteriores uma vez que devem ter servido de modelo aos desenhos publicados em 1897.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Os tabuleiros TV

Acordei há dois dias a pensar nos tabuleiros TV. Acho que foi nos anos 70 que comprei dois tabuleiros amarelos, mas agora à distância não consigo lembrar-me se alguma vez os utilizei.
Os primitivos tabuleiros TV eram feitos em alumínio e surgiram nos USA em 1953, vendidos já com comida confeccionada pela empresa Swason. Esta firma vendia para o dia de Acção de Graças (Thanksgiving) peru congelado, mas nesse ano calculou por baixo o valor total dos perus que necessitava comercializar. Apenas menos 26 toneladas, um número impensável no nosso país. 
Fotografia tirada da internet
Para evitar situações semelhantes decidiram comercializar peru fatiado já preparado com outros alimentos e, para o fazer, conceberam uma embalagem em alumínio com várias divisórias. A ideia foi muito bem recebida e a firma passou a comercializar várias refeições que a publicidade dizia se destinavam a mulheres ocupadas mas que queriam manter o hábito dos jantares familiares.
Este foi considerado o primeiro jantar TV, um sucesso, pois sabem com os americanos apreciam comer à frente da televisão qualquer porcaria colocada num prato. O tabuleiro usado, em alumínio, tomou o nome de «tabuleiro TV» e passou depois a ser feito em plástico, com cavidades para meter o prato, os talheres, os copos e outros alimentos. Não sei concretamento quando começaram a ser vendidos mas várias empresas como a Tupperware, produziram-nos em cores vivas.
Fotografia tirada da internet
Em Portugal devem ter chegado no final dos anos 70. Estes aqui apresentados foram feitos na fábrica de plásticos de Leiria, mas é provável que tivesse sido também produzido noutras fábricas. 
Tinham um ar moderno e faziam lembrar as refeições servidas nos aviões, que então as pessoas ainda não associavam a má qualidade.
Foram comprados por quem gostava de novidades mas devem ter sido muito pouco utilizados, não só porque muitas pessoas ainda não tinham televisão em casa e porque ninguém comia no sofá. Hoje é possível encontrar os modelos antigos à venda no mercado, mas espantem-se, ainda há firmas a produzi-los indistinguíveis dos primitivos. Será que há quem os use?