segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Ser atado” ou como levar as expressões à letra

Já anteriormente falei dos fogões da Vacuum Oil, cuja publicidade era interessantíssima. Hoje mostro mais um exemplo de como «os publicitários são uns exagerados», como alguém disse há alguns anos.
Com um desenho de Emmérico Nunes (1888-1968) a criada apresenta-se literalmente atada e a explicação para os atrasos nas refeições não é dela mas da falta do fogão Vaccum que faz um pequeno almoço em 10 minutos, usando é claro, petróleo Sunflower comercializado pela Vacuum Oil Company. 
O anúncio foi publicado na contracapa da revista ABC (25-10-1928), que apresenta na capa o perfil de uma jovem, muito ao gosto dos anos vinte. O tipo de desenho e a assinatura (S.) fazem-me pensar que se trata de António Soares (1894-1978) que assinou as suas obras com «António», «Soares» e «António Soares» e possivelmente «S.», tal como Emmérico Nunes assinou «E».

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A industria têxtil no XXI Encontro de História Local

Convite para assistirem ao interessante «XXI Encontro de História Local, onde o olhar vai recair sobre uma das indústrias com mais longa tradição em Guimarães – a indústria têxtil.
Fácil é perceber o porquê desta longa tradição do têxtil em Guimarães quando pensamos que esta é terra de pergaminhos, protegida por reis, fértil em águas, de clima ameno e propício ao cultivo do linho e à produção da lã,
espaço de peregrinação desde a Idade Média, localizada numa encruzilhada de caminhos que facilitava o acesso ao
mar, não longe do Porto, e sendo uma via de ligação privilegiada com Trás-os-Montes.
Os linhos de Guimarães, e mais tarde o seu bordado, ganharam nome e estatuto entre as produções nacionais e, ainda hoje, a indústria têxtil no concelho está pujante.
Neste XXI Encontro de História Local, iremos a tempos longínquos em busca do têxtil de Guimarães, debruçar-nos-emos sobre a introdução da tecnologia na indústria têxtil vimaranense entre os séculos XIX e XX e partiremos, de seguida,  em busca do uso dos têxteis na vida religiosa e profana. Um programa a não perder!»
(Texto de apresentação do colóquio)
Bordado de Guimarães. Pormenor de uma toalha de mesa. Imagem do livro «Bordado de Guimarães»
PROGRAMA
9h30 - Entrega de documentação
10h00 - Guimarães: o tecer histórico de um concelho. Isabel Maria Fernandes
10h45 -  Pausa para café
11h15-  A introdução da tecnologia na indústria têxtil de Guimarães entre os séculos XIX e XXI. Paula Ramos Nogueira
12h00 - Em busca dos têxteis: visita guiada ao Museu de Alberto Sampaio
12h30 - Almoço
14h30 - Os ornamentos pombalinos da Colegiada de Guimarães: uma coleção dividida. Maria José Meireles
15h15 - Vestir a mesa. Séculos XV a XX. Ana Marques Pereira
16h00 - Pausa para café
16h30 - Considerações sobre as Telas da Casa do Largo Dr. João Mota Prego. Rosa Maria Saavedra
17h00 -  Errologia - O erro como metodologia de Design. Filipe Miguel de Melo Falcão
17h30: Debate. Encerramento.

Eu vou estar lá a falar sobre o que eu gosto (A mesa) e que será o tema do meu próximo livro.
Para os interessados a inscrição é feita preenchendo o formulário com acesso  em: 
 https://docs.google.com/forms/d/1tCplVLnJaAMJdao87hG4tkPkMbPHAhf3Ol9SYyN0wWo/edit?usp=sharing


domingo, 10 de setembro de 2017

Chávenas há muitas

Tal como dizia Vasco Santana na célebre cena do filme A Canção de Lisboa: «chapéus há muitos…», também há muitas chávenas.
Existem de todos os tamanhos e formatos, com maior ou menor riqueza consoante o material de que são feitas e o tipo de pintura. Perante esta diversidade dizer que esta é a mais bonita parece difícil, mas é irresistível pensá-lo. Olhando para ela achei-a de imediato lindíssima. É uma chávena de café, de dimensões um pouco avantajadas para os nossos conceitos de hoje, em que bebemos sobretudo “bicas”.
De contorno gomado é acompanhada por um pires polilobado com várias flores pintadas à mão, todas diferentes. No prato conto oito flores, de várias cores, intercaladas por raminhos que se encontram também no exterior da chávena. No interior desta encontra-se uma flor no fundo e vários raminhos. A toda a volta do rebordo da chávena e da asa, bem como no contorno do pires, foram desenhados pequenos risquinhos de uma simetria e igualdade espantosa.
Infelizmente é apenas uma porque gostaria de comparar com as restantes, que certamente a acompanhavam, e ver como o artista repetiu esta pintura delicada.
No fundo da chávena e do pires pode ver-se o carimbo da Fábrica do Carvalhinho e as frases «Pintado à mão» e «made in Portugal». Não tenho nenhum catálogo da louça do Carvalhinho mas seguramente que esta peça é de cerca de 1950. 
A fábrica do Porto, com início em 1840, começou por fazer sobretudo azulejos. Em 1923 passou para Vila Nova de Gaia para a Quinta do Arco do Prado, com umas extensas instalações de que só sobraram ruínas. Entre 1923 e 1961 esteve ligada à Fábrica de louça de Sacavém e acabou por fechar após o 25 de abril de 1975 (década de 80?).
Foto tirada do blog Ruin'Arte
O que me atrai nas peças desta Fábrica é a sua portugalidade (não me peçam para explicar). Noutro poste falarei de histórias relacionadas com outras peças que fui adquirindo para justificar este meu gosto. Por hoje fico-me apenas com a apresentação da "mais bela chávena" de café, que me faz repousar o meu olhar. 
Espero que as imagens sejam convicentes, se o texto o não tiver sido.

sábado, 2 de setembro de 2017

A obra de Ginette Mathiot

Edição de 1963
Quando estudava na Faculdade vivi durante algum tempo em casa de uma amiga francesa, em Lisboa. Quando ela voltou a França fiquei com a casa e alguns dos seus livros. Não me recordo de nenhum em especial excepto de um pequeno livro de receitas, uma edição de bolso, chamado «La Patisserie pour tous».
Edição de 1971
O livro tem 911 receitas apresentadas por temas e escritas de uma forma muito simples. Dos inúmeros livros de culinária que possuo a grande maioria nunca serviu para fazer uma única receita. Mas a este pequeno livro tenho sido fiel, sei sempre onde está e é o livro que consulto para fazer crepes (a receita nunca falha), scones, massas quebradas, folhadas, etc.
Pasteleiro por Nicolas Larmessin . Séc. XVII
Como todos os livros tem uma autoria, mas nunca me debrucei sobre isso. Para mim era o livro pequeno de capa branca que tinha uma imagem modificada, ao gosto dos tempos modernos, do «Patissier» desenhado por Nicolas de Larmessin no século XVII.
Quando há dias me veio parar às mãos um livro com o mesmo título mas com uma capa diferente, pareceu-me familiar. Quando os comparei vi que a minha edição era de 1963 enquanto esta é de 1971. Pela primeira vez reparei no nome da autora: Ginette Mathiot.
Ginette Mathiot. Foto tirada da internet.
Quando fui pesquisar o seu nome descobri que Ginette Mathiot,(1907-1998) tinha sido uma professora de artes caseiras (arts ménagers) que em Portugal se designou como Economia Doméstica e que chegou a Inspectora Geral do Ensino Doméstico da cidade de Paris.
Para além disso, foi autora de vários livros de cozinha que tiveram uma estrondosa aceitação. O primeiro e mais famosos foi o Je sais cuisiner (1932) adaptado nesta colecção de livros de bolso como La Cuisine pour tous (1955). Este livro foi um sucesso editorial com publicações na ordem dos milhões.
Seguiu-se em 1938 Je sais faire la pâtisserie e em 1948 Je sais faire les conserves. Esta edição de Pastelaria que eu referi foi adaptada da de 1938 e reproduzida várias vezes depois. Mas muitos outros títulos da sua autoria foram publicados, tanto de receitas como de Economia Doméstica e Higiene. Uma grande parte da sua obra foi também traduzida em muitas línguas.
Foto tirada da internet
Perante toda a sua actividade disciplinada e organizada, que abreviei muito, pedi desculpa mentalmente à falecida autora Ginette Mathiot, por nunca sequer ter reparado no seu nome.
Sei que estou desculpada. Porque esta sua obra teve aqui uma seguidora. O início da receita dos crepes ficou na minha cabeça: «Mettre la farine dans une terrine. Faire un puits; y casser les oeufs……….» por tantas vezes o ter lido.
Afinal eu soube reconhecer a qualidade, mas a fraca e simples apresentação do livro não o valorizou. Que contraste com as obras de grande apresentação gráfica que não prestam para nada, que compramos pela sua beleza e nunca nos servem senão para encher as prateleiras. 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um Santo António em brinde de 1907

À primeira vista parece um santinho mas é um brinde comercial oferecido pela Casa J. B. Carlos das Neves, em 1907.
Tenho um fascínio por estes brindes que de forma simples faziam lembrar aos clientes que eram importantes e que pensavam neles. Consistia numa forma de divulgação das empresas e foi um mercado próspero até o país ter entrado em crise.
Claro que os mais bonitos são do século XIX mas durante o século XX, até talvez aos anos 90, continuavam a ser oferecidos. Com as preocupações de restringir gastos as firmas deixaram de os encomendar e acabou-se este tipo de ofertas.
Sei que devia esperar pelo próximo Santo António para o mostrar mas até lá ia seguramente esquecer-me, como já me aconteceu com outros temas. Assim, aqui lhes mostro este pequeno livrinho que no seu interior tem uma pequena biografia do Santo e um calendário com o nome de todos os santos, dia a dia.
Da firma J. B. Carlos das Neves não consegui saber nada apesar da sua longevidade. A casa foi fundada em 1776 e situava-se no Porto, na Rua das Flores 224-226. Em 1907 contava já com 131 anos, mas acabou por fechar em data que desconheço.
Rua das Flores, 224-6, no Porto,  onde se situava  a casa de J. B. Carlos das Neves
No verso do folheto anunciavam que a sua especialidade era o chá, o café e o açúcar de todas as qualidades e preços. Vendia também chocolate nacional e estrangeiro, incluindo os «croquettes de chocolate», em caixinhas de fantasia próprias para brinde. Dentro do reino alimentar vendiam também massas alimentícias e conservas. Como era habitual neste tipo de lojas comercializavam também objectos da Índia e da China.
Este brinde não ficou contudo na mão da cliente que o recebera. Ofereceu-o a uma amiga que o guardou cuidadosamente. Na face posterior, a toda a volta, pode ler-se numa letra com tinta já muito sumida: «À minha muito querida amiga Ernestina offerece Paulina porque bem sei que gostas muito de Santo António. 31-1-907».
A beleza do presente deve ter enternecido Ernestina que o conservou religiosamente.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Interior de ourivesaria no século XVII

 
Estou a preparar uma comunicação sobre saleiros que farei na Casa Museu Anastácio Gonçalves (CMAG) em Outubro. Ainda falta muito tempo mas aprendi que as comunicações se fazem pelo menos com um mês de antecedência e depois se fecham para só tornar a pegar nelas perto da altura da apresentação.
 
O título será «Saleiros: simbologia e funcionalidade» e o tema será o desenvolvimento deste assunto a propósito dos saleiros da CMAG. Quando nos debruçamos sobre um assunto descobrimos que não sabemos nada. Depois vamos, lentamente, construindo um puzzle. O resultado final, quando as peças se começam a encaixar é fantástico.
Para abrir um pouco o véu mostro-lhes esta pintura holandesa do final do século XVII, de autor desconhecido, em que a cliente, acompanhada de uma criança, escolhe um saleiro, no interior de uma ourivesaria.
Saleiros de prata do séc. XVIII. Alemanha
Na mão um exemplar coberto do tipo caixa circular, com pé, atrai as suas atenções. Um outro semelhante, ligeiramente mais alto e elaborado, encontra-se dentro de uma vitrina. A escolha contudo será feita entre o primeiro e o pequeno saleiro aberto, descrito como cilíndrico com as extremidades alargadas, que foi muito comum no século XVII, depois de 1630 e na primeira metade do século XVIII.
A peça que se encontra na extremidade do balcão poderia igualmente ser um saleiro, mas a suas dimensões, coloração (estamos numa ourivesaria) remetem-nos mais para uma caixa de pesos, em que alguns deles se encontram no exterior.

Em tempo de férias é uma forma de viajar até à Holanda do século XVII e entrar sorrateiramente numa pequena loja sombria. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A bebida criada por Friederich Bilz

Utilizando os conceitos naturistas Friedrich Eduard Bilz alargou a sua acção à criação de uma bebida, tipo limonada, feita com água mineral e sumo de limão, que administrava aos seus pacientes na clínica, desde 1902, com o nome Bilz Brause.
Foi a sua associação ao industrial local, Franz Hartmann, que viria a desenvolver a comercialização desta bebida. Registada em 1905 com o nome Sinalco, que ia buscar a etimologia latina para «sem álcool», tornou-se na mais antiga marca de refrigerantes europeia. A partir de 1907 começou a ser comercializada em mais de 40 países, com relevo para a América do Sul e Médio Oriente.
O sucesso da bebida na Alemanha foi interrompido pela I Guerra Mundial e retomado nos anos 30, como resposta aos refrigerantes americanos que chegavam ao país.
Novamente suspensa a produção durante a II Grande Guerra ressurgiu nos anos 50, para uma população ansiosa de bebidas e de doces. 
O consumo deste refrigerante foi sempre apoiado por campanhas publicitárias bem estruturadas que se iam adaptando aos tempos.
Publicidade dos anos 60, tipo flower power. Imagem tirada da internet.
Do mesmo modo também a bebida se foi alterando sendo introduzido vários sabores, com a Sinalco Kola que surgiu logo em 1954. Hoje as múltiplas variedades desta bebida colocam-na em terceiro lugar no consumo de refrigerantes na Alemanha (depois da Fanta e da Sprite).
Publicidade para o Chile de Oscar Ramos
Na América do Sul foi no Chile que esta bebida teve maior desenvolvimento. A Bilz entrou pela primeira vez no mercado chileno em 1902, comercializada pela Cervejaria Ebner cujo dono era um alemão, Andrés Ebner Anzenhofer.
Em 1912, a Cervejaria Ebner foi comprada pela Compañía de Cervecerías Unidas (CCU), que era a maior engarrafadora chilena da época e o refrigerante passou para essa empresa. Foi esta que, em 1927, lançou uma outra bebida gasosa com sabor a papaia chamada inicialmente Papaya Rex que, a partir de 1960, se passou a chamar Pap.
A partir de 1970 surgiu a comercialização das duas bebidas com o nome Bilz y Pap que se tornaram nas mais consumidas no Chile (campanha publicitária com desenhos do ilustrador chileno  Oscar Ramos).
Embora estes refrigerantes, apesar do nome Bilz, já nada terem a ver com a bebida inicial, também esta empresa seguiu o exemplo da alemã com campanhas publicitárias agressivas e imaginativas, tendo transformado Bilz e Pap em figuras da banda desenhada, com aventuras publicadas em revistas infantis.
Por alguma razão a marca Sinalco faz parte das 300 marcas presentes no livro «Deutsche Standards - Marken des Jahrhunderts» («Padrões alemães - Marcas do Século») onde se encontram as imagens mais icónicas dos produtos "Made in Germany". E tudo começou com Friedrich Eduard Bilz e os seus conceitos naturalistas.