quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Medicina Popular em Portugal

Convite:
Mesa Redonda “Medicina Popular em Portugal - Um Património Imaterial em vias de Extinção?” que terá lugar no dia 7 de Outubro de 2016 pelas 17h00, no Auditório Adriano Moreira.

 Programa:
 17h00 – Sessão de abertura:
              Professor Doutor Luís Aires-Barros, Presidente da SGL
              Professor Doutor Luís Marques, Presidente da APSPCI
 Oradores
             - Padre António Lourenço Fontes, Etnógrafo
             (criador do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes)                   
            - Moisés Espírito Santo, Etno-sociólogo, Prof. Catedrático Jubilado da UNL).
            - António Vermelho do Corral, Investigador em Medicina Popular e Presidente da Secção de Antropologia da SGL
           - Debate.
 19h00 – Encerramento

Sociedade de Geografia de Lisboa
Rua das Portas de Santo Antão, 100
1150-269 Lisboa - Portugal
213425401 - 213464552


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A propósito do ponto de Assis

O bordado em ponto de Assis foi muito usado durante o século XX em toalhas de mesa. É um ponto que nos é familiar e nunca me tinha interrogado se era um ponto português ou não. Na realidade não é. Como o nome indica é um ponto com origem na cidade italiana de Assis, bastante recente no que respeita a bordados, uma vez que data do início do século XX.
Foto tirada do Pinterest
O ponto de Assis consiste em contornar com linha preta os elementos que se querem evidenciar, leões, dragões ou outros, deixando o interior em branco. À sua volta é feito um bordado em ponto de cruz, numa única cor, geralmente vermelha, azul ou âmbar, o que que vai realçar o interior não bordado.
Este ponto baseia-se num outro o chamado ponto Holbein, precisamente porque está presente em muitas das pinturas de Hans Holbein o Jovem (c. 1497 - 1543).
Jane Seymour por Holbein
Foi um dos grandes retratistas do século XVI, tendo sido essa a função que exerceu na corte do rei inglês Henrique VIII, desde 1535. Holbein tinha um cuidado extremo com os pormenores e a representação do bordado presente nos trajes, tal como a das jóias ou outros aspectos é minuciosa.
Pormenores do retrato de Jane Seymour
Este tipo de bordado é feito com linha preta sobre tecido branco, com desenhos tipo arabesco e foi muito usado durante o século XVI no vestuário das classes mais abastadas. Podemos vê-lo nos punhos da rainha Jane Seymour (hoje no Museu Kunsthistorisches de Viena de Áustria), no peitilho de Henrique VIII e no colarinho de muitas blusas de pessoas pintadas por Holbein.
Henrique VIII pintado por Holbein. Note-se o peitilho bordado
O Holbein, por sua vez, faz parte do conjunto dos chamados “bordados a preto” e foi também conhecido como “ponto espanhol”, mas o seu uso é também tradicional na indumentária de alguns países nórdicos.
 
Thomas Godsalve e filho por Holbein. Veja-se o colarinho do filho.
Retrato de um homem com chapéu vermelho por Hans Holbein
Portanto da próxima vez que virem um quadro de Holbein os olhos vão dirigir-se para os bordados, que estavam lá “escondidos” e que o conjunto nos fazia não reparar nesses pequenos pormenores.
Margaret Roper por Holbein. Metropolitam Museum
O mesmo poderá acontecer se virmos uma toalha de mesa com bordado em ponto de Assis, situação que é hoje cada vez menos provável, nesta época em que o que se procura é ter pouco trabalho. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Assobia-lhe às Botas


Confesso que desconhecia esta expressão que significa dar uma coisa por perdida. Isto é: ser tarde demais para obter o que se deseja.
A imagem não podia ser mais explícita. Um polícia assobia a um infractor (supomos), mas este afasta-se rapidamente e foge. Dito em português popular corrente e de forma sintética: «Já era».
Esta imagem pertencia a uma folha de uma caixa de bolachas provavelmente do final do século XIX ou início do século XX. É rara por diversas razões, mas logo à cabeça refira-se o seu formato circular, destinado a caixas pequenas para oferta, quando o mais frequente eram as caixas grandes quadradas destinadas à venda a granel.
Embora não esteja identificada sei que foi feita para a fábrica de Eduardo Conceição Silva e Irmão, que ficava na Rua de S. Amaro, em Lisboa, pelo que era também conhecida por Fábrica de Santo Amaro ou do Calvário. O local da fábrica era nas antigas cocheiras do Palácio Real do Calvário que o proprietário adquiriu à Casa de Bragança em 1878, juntamente com o seu irmão Francisco.
Em 1901 a fábrica era ainda uma das principais produtoras de trigo, situando-se em 6º lugar. Foi uma firma importante que laborava pelo sistema austro-húngaro, que desconheço o que significava. Tinha depósito em Lisboa na Rua da Prata, 210-212 e na Rua direita de Belém 139-140 e filiais no Porto, na rua Mouzinho da Silveira, 93 a 97, em Viana do Castelo na Praça da Rainha, 36-38 e um depositário em Braga chamado José António da Rocha.
A terceira casa a contar da direita é o Palacete Conceição Silva. Foto do AML.
Foi o seu irmão Francisco quem encomendou ao arquitecto francês Henri Lusseau, a casa, iniciada em 1891, que ainda hoje existe na Avenida da Liberdade em Lisboa de gosto revivalista no chamado estilo neo-árabe e que ficou conhecida como Palacete Conceição Silva.

A produção de bolachas manteve-se ainda após a República como o atestam numerosos litografias feitas para caixas cúbicas e cartazes publicitários de gosto pró-republicano, de que falarei noutra ocasião. A fábrica terá terminado antes de 1918 porque já não consta da lista das principais empresas do sector feita nesse ano. Foi comprada pela Companhia Industrial de Portugal e Colónias que nessa altura havia já adquirido várias outras empresas do sector, incluindo a Fábrica da Rua de Santo Amaro.
Imagem tirada do blog Cinemas do Paraíso
Foi herdeiro da firma Augusto Serra e Costa que o vendeu à Sociedade Promotora de Educação Popular. Esta associação de ensino, fundada em 1904 por republicanos, num outro local, mudou-se em 1911 para o edifício da antiga fábrica onde ainda funciona, partilhando o edifício com a Videoteca da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1912 no primeiro andar da Sociedade Promotora de Educação Popular foi instalado o Cinema Promotora, pelo que parece verosímil que a fábrica se tenha extinguido entre 1911 e 1912.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Objectos esquecidos: a maça

Este objecto podia, tal como muitos outros, ser um objecto mistério. Mas tenho quase a certeza de que ninguém ia acertar pelo que passo directamente para a resposta.

Segundo as palavras de José Gonçalo Herculano de Carvalho[1]trata-se de uma maça de maçar linho, usada em Covas, Terras do Bouro. Servia também para debulhar o milho dentro do masseirão.
No Minho, em diversas localidades, era utilizado para debulhar o milho e as leguminosas secas. Para isso colocava-se o milho dentro do masseirão[2], uma espécie de caixa de madeira com pernas, com fundo esburacado ou formado por ripas de madeira. O milho que se guardava nos espigueiros (canastros), era usado a pouco e pouco, sendo malhado com a maça apenas na quantidade necessária para a fornada. Os grãos de milho passavam pelos orifícios do fundo e em cima ficavam os carolos vazios.
Era a chamada malha a pau com maça, havendo variantes tanto do tipo de caixa, que podia ser substituído nalgumas terras por um cesto como no tipo de maça. Esta que aqui se apresenta tem cerca de 40 cm de diâmetro e apresenta sulcos lisos no corpo e na pega, estando identificada com sulcos em cruz na extremidade que devia permitir distinguir esta maça de outras.
Passou pouco mais de meio século e se não fosse o trabalho extraordinário que os nossos etnólogos fizeram, hoje olharíamos para este objecto e não percebíamos para que tinha servido. Na realidade José Gonçalo Herculano de Carvalho (1924-2001) foi um linguista e foi nessa qualidade que escreveu este texto e muitos outros. O título «Coisas e palavras» não podia ser mais apropriado e quase me apetecia roubá-lo, mas optei por «objectos esquecidos». Espero que gostem.

[1] «Coisas e palavras» in Biblos. Revista de Faculdade de Letras, Coimbra. vol XXIX. 1953. pp. 77-78.
[2] Note-se a semelhança com a masseira.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Museu Virtual: Saleiro, Pimenteiro e Paliteiro

Nome do Objecto: Conjunto de mesa composto por Saleiro, Pimenteiro e Paliteiro.
Descrição: Objectos em forma de pequenos livros perfurados no topo.
Material: Cerâmica vidrada.

Época: Década 1950-1960

Marcas: Não tem. Caldas? Secla?

Origem: adquirido no mercado português.
Grupo a que pertence: Equipamento culinário.

Função Geral: Condimentar comida na mesa.

Função Específica: Um destina-se a sal, outro a pimenta e o maior a palitos.

Nº inventário: 2291.
Objectos semelhantes: Outros livros em cerâmica destinados a servir como paliteiros e outros objectos com a mesm aforma mas de maiores dimensões destinados a conter e servir bebidas alcoólicas.

Observações: 
Estes objectos foram usados na estalagem do Gado Bravo que se situava na Recta do Cabo, perto de Vila Franca de Xira. Em 1951 era descrito como um tendo quartos, salão de festas e uma adega ou taberna. Teve também anexo uma praça de touros. Foi seu gerente José Carlos Batista, juntamente com a sua mulher Maria José e mais tarde o seu filho Victor que aí estiveram até 1974. Na década de 1980  caiu no abandono encontrando-se hoje em ruinas.
Foto tirada do blog Retratos de Portugal
O hotel chegou a ter quatro estrelas e era considerado um estabelecimento de grande qualidade, em especial o restaurante, frequentado por pessoas ligadas à tauromaquia, fadistas como Amália Rodrigues, Hermínia Silva e outros artistas e pessoas famosas. Em 1951 aquando da visita da rainha Isabel de Inglaterra a Vila Franca de Xira foi junto à bomba de gasolina da Shell que fazia parte do empreendimento que foi montado o palanque. 
Paul Mcartney e Jane na estalagem gado Bravo. Foto tirada do site de Jane Asher.
Entre as muitas visitas menciona-se também a de Paul Mcartney que em junho de 1965 aí passou parte do dia antes de regressar a Londres com a sua namorada Jane Asher.
A decoração interior era rustica e de influências ribatejanas e estes objectos de mesa integram-se nesse gosto da época.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Objecto Mistério Nº 51. Resposta: Pinça para Espargos.

 Foi no século XIX que o serviço de talheres de mesa se expandiu. Surgiram os talheres de peixe (embora a sua divulgação fosse mais tardia) e muitos outros para o serviço de mesa requintado.
Embora muitos deles persistam e tenham entrado no quotidiano, outros já não existem. Um dos utensílios usados à mesa foi a pinça para servir espargos, em prata ou em liga de metal que a incluía, como a Christofle, entre outras. 

Os modelos de pinças para servir espargos foram vários desde a mola larga, sem pega, ao tipo de pinças individuais.
Li em qualquer lado que o modelo aqui apresentado foi mais usado pelos ingleses mas não posso confirmar.

A peça tem apenas uma marca que não consegui identificar, mas será talvez francesa (a ignorância é muito atrevida).

domingo, 21 de agosto de 2016